A psicanálise como lente: Uma interlocução entre a teoria psicanalítica e a cultura
- Rosi Mello
- 13 de jan.
- 5 min de leitura

Creep - Aberração (Radiohead)
When you were here before - Quando você esteve aqui
Couldn't look you in the eye - Não conseguia te olhar nos olhos
You're just like an angel - Você é como um anjo
Your skin makes me cry - Sua pele me faz chorar
You float like a feather - Você flutua como uma pena
In a beautiful world - Em um belo mundo
I wish I was special - Eu gostaria de ser especial
You're so fucking special - Você é especial para caralho
But I'm a creep - Mas eu sou uma aberração
I'm a weirdo - Eu sou esquisito
What the hell am I doing here? - Que diabos estou fazendo aqui?
I don't belong here - Eu não pertenço a esse lugar
I don't care if it hurts - Eu não ligo se isso machuca
I wanna have control - Eu quero ter o controle
I want a perfect body - Eu quero um corpo perfeito
I want a perfect soul - Eu quero uma alma perfeita
I want you to notice - Eu quero que você perceba
When I'm not around - Quando não estou por perto
You're so fucking special - Você é especial para caralho
I wish I was special - Eu gostaria de ser especial
But I'm a creep - Mas eu sou uma aberração
I'm a weirdo - Eu sou esquisito
What the hell am I doing here? - Que diabos estou fazendo aqui?
I don't belong here - Eu não pertenço a esse lugarOh, oh
She's running out the door - Ela está fugindo pela porta
She's running out - Ela está fugindo
She run, run, run, run - Ela corre, corre, corre, corre Run - Corre
Whatever makes you happy - Seja lá o que te faz feliz
Whatever you want - Seja lá o que você quiser
You're so fucking special - Você é especial pra caralho
I wish I was special - Eu gostaria de ser especial
But I'm a creep - Mas eu sou uma aberração
I'm a weirdo - Eu sou esquisito
What the hell am I doing here? - Que diabos estou fazendo aqui?
I don't belong here - Eu não pertenço a esse lugar
I don't belong here - Eu não pertenço a esse lugar
A partir da escolha do texto Luto e Melancolia, que Freud (1917) escreveu durante o período da 1ª Guerra Mundial, senti a necessidade de pensar como essas elaborações aparecem também na cultura, especialmente em narrativas contemporâneas que retratam o sofrimento psíquico. Foi nesse momento que, casualmente, me deparei com uma publicação no Instagram que dizia “Aprendendo amor próprio com o rock dos anos 90” e apresentava uma série de trechos de canções daquela década, repletas de um forte conteúdo autodepreciativo. Uma delas, a música Creep, da banda Radiohead, pareceu uma expressão bastante sensível daquilo que Freud descreve como o estado melancólico. Na análise da sua letra, identifiquei o rebaixamento do Eu, a autodepreciação e o retorno da agressividade contra si que caracterizam esse modo de padecimento.
Freud descreve o luto como um processo necessário após a perda de um objeto amado ou de uma abstração que ocupa seu lugar, como pátria, liberdade etc. Assemelha-se a melancolia, porém não afeta a autoestima. Há dor, retraimento, desinvestimento do mundo externo, mas tudo isso organizado em torno de um trabalho psíquico que, quando possível, caminha para a elaboração e para a reinvestidura da libido em novos objetos. O término do trabalho do luto ocorre quando o sujeito consegue aceitar que o objeto morreu mas ele próprio tem a sorte de permanecer vivo.
A melancolia, porém, apresenta outro funcionamento. Diferentemente do enlutado, o melancólico não sabe exatamente o que perdeu, pois o evento traumático ocorreu em estágio inicial da vida do indivíduo. Tal perda é enigmática, muitas vezes inconsciente, e o vazio que se instala não tem nome. Ocorre um abatimento doloroso, com uma cessação do interesse pelo mundo exterior, perda da capacidade de amar e diminuição da autoestima. A agressividade que deveria ser dirigida ao objeto perdido volta-se contra o Eu, produzindo autodepreciação, vergonha, indignidade e, muitas vezes, um sentimento de falha estrutural. Enquanto no luto o mundo fica empobrecido; na melancolia, é o próprio Eu.
Freud (1917) diz que “o doente nos descreve seu Eu como indigno, incapaz e desprezível; recrimina e insulta a si mesmo, espera rejeição e castigo” e que “degrada-se diante dos outros; tem pena de seus familiares, por serem ligados a alguém tão indigno”. Ao escutar Creep, percebo que essa estrutura melancólica aparece de forma contundente na narrativa da música. O Eu que fala se descreve como inadequado, “errado”, alguém que não merece estar onde está. Essa sensação de não merecimento, de ser profundamente defeituoso, evoca diretamente o mecanismo identificado por Freud: quando a perda do objeto não pode ser simbolizada, o sujeito o “instala” em seu próprio Eu, e passa a tratá-lo com extrema severidade. É o que Freud sintetiza em sua conhecida frase de que, na melancolia, “a sombra do objeto caiu sobre o Eu”. Na música, essa sombra aparece na forma de um autojulgamento duro, que parece não surgir de uma reflexão consciente, mas de uma identificação profunda com um lugar de menos-valia.
Outro ponto que me chamou atenção é a idealização do outro presente na música. A figura amada é descrita como alguém “tão especial”, tão distante e superior, que o sujeito não consegue sequer se imaginar digno de aproximação. Essa disparidade radical entre o Eu e o outro cria uma relação ambivalente, tal como Freud descreve na melancolia, amor e hostilidade coexistem, ainda que a hostilidade não apareça diretamente dirigida ao objeto.
Ela reaparece transformada em autocrítica, como se o Eu fosse culpado por não corresponder à idealização que ele mesmo cria. A agressividade é, assim, deslocada para dentro.
Além disso, chama a atenção o movimento de retraimento do mundo, típico do estado melancólico. Na música, o sujeito observa o outro à distância, incapaz de se conectar, como se não tivesse autorização para existir de forma plena diante do objeto. A libido que, no luto, pode retornar gradualmente para novos objetos, permanece estagnada no Eu, voltada contra ele em forma de acusações, vergonha e desejo de desaparecer. Esse desejo de sumir, presente na música, demonstra o rebaixamento do sentimento de si descrito por Freud, em que o Eu perde valor, energia e vitalidade.
Ao relacionar Creep com Luto e Melancolia, percebo que a música oferece uma oportunidade de visualizar a lógica melancólica em operação. Mais do que uma descrição de tristeza ou rejeição, ela apresenta uma forma de sofrimento marcada pela incorporação do objeto, pela autocrítica feroz e por uma impossibilidade de se desligar de uma posição depreciada. Para mim, essa articulação evidencia como Freud não está descrevendo apenas um fenômeno clínico isolado, mas algo que ressoa em expressões culturais, artísticas e subjetivas até hoje. Dessa forma, o diálogo entre Freud e a música é capaz de demonstrar a diferença entre luto e melancolia: enquanto o luto é uma travessia possível e - na maioria das vezes - temporária, a melancolia tem um caráter estrutural e se configura como uma prisão interna, onde o sujeito se acusa, se diminui e se torna alvo de sua própria agressividade. Creep torna audível essa dinâmica, permitindo que a teoria freudiana ganhe corpo, voz e afetos.
Autora: Marcela Prestes, psicóloga clínica e Membro em Formação no ESIP

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